sexta-feira, 23 de maio de 2014

Copa do Mundo de Futebol no Brasil

O nosso País será a sede do campeonato mundial de futebol, edição 2014, que se inicia no dia 12 do mês de junho, uma quinta-feira, e acaba no dia 13 de julho, domingo, com a participação de 32 seleções nacionais de todos os continentes. Estamos aguardando o evento com a maior expectativa, na esperança de que ele nos traga alegrias e comemorações. Por outro lado, este período que antecede a Copa deve nos motivar a fazer uma serena reflexão sobre as consequências dessa grande festa para o povo brasileiro a curto e médio prazo.

Não há dúvida de que as obras físicas da Copa do Mundo custaram uma fortuna aos cofres públicos. Não falo apenas dos estádios de futebol, agora batizados de “Arenas”, que receberam recursos adicionais da iniciativa privada. Falo também da construção e reforma de estradas; da reforma e ampliação de aeroportos; dos gastos com o aparato de segurança; das despesas de implantação do sofisticado sistema de transmissão de voz e imagens pelos canais de mídia eletrônica e convencional, que cobrirão os acontecimentos; falo, enfim, de uma série de investimentos que, antes orçados em milhões de reais, vão consumir, na verdade, quase o dobro da previsão inicial.

Claro que tudo isso nos preocupa. Mas estou convencido de que conseguiremos atrair um volume extraordinário de recursos no setor de turismo, o que propiciará fôlego no balanço de pagamentos deste ano, beneficiando as finanças públicas com o ingresso maciço de capitais. As obras de mobilidade urbana e todas as outras que o País construiu para reforçar sua capacidade logística servirão para melhorar a qualidade de vida dos brasileiros – é o que esperamos. Mas é preciso estar atento para a questão da administração subsequente ao evento de todas as obras que foram implantadas no interesse da Copa do Mundo.

Temos informações dando conta de que o plano de investimentos nas cidades que sediarão os jogos da Copa alcançaram o total de mais de R$ 25 bilhões, e foram prioritariamente destinados à infraestrutura (mobilidade urbana, portos e aeroportos), logística, energia e segurança. Alguma coisa boa há de ficar desse gigantesco esforço que não deve ser creditado somente ao governo, mas ao povo brasileiro como um todo – esse povo que sofre sob a jugo de uma escandalosa carga tributária e que, por isso mesmo, reage ante a má aplicação das verbas públicas.

O cidadão brasileiro vem, pouco a pouco, se adaptando ao clima de liberdade que só o regime democrático é capaz de lhe oferecer. Por isso, aceita as manifestações públicas de protesto como termômetro da capacidade de participação pacífica de todos, com coerência e responsabilidade. O exercício do direito de protestar não pode, por razões óbvias, extrapolar os limites do bom senso e do razoável. Não devemos aceitar a violência, parta de onde partir. Se necessário, correntes sociais de opinião sairão às ruas, com diversas motivações e palavras de ordem. Mas, por que não aproveitar o momento para festejar tudo de bom que a Copa pode proporcionar ao País, e nos preparar para cobrar dos atuais dirigentes que o legado da Copa não seja um fardo, principalmente para a população mais carente? Por que não reconhecer que esta é uma grande oportunidade de união da nação brasileira, com o propósito de pensarmos juntos os nossos problemas e as suas soluções?

Estamos em uma encruzilhada em que é imperioso convocar o otimismo, porque de pessimismo o horizonte está repleto – e sob esta perspectiva não vai ser fácil superar as dificuldades. A hora é de pensar grande, pensar alto, de andar com fé. É hora de pensar o Brasil como a pátria querida de todos, como a nossa própria casa, como a casa dos nosso filhos e netos, a “clava forte da Justiça” e a realização dos ideais de igualdade e fraternidade que nos trouxeram até os dias de hoje, porque fora da esperança não há salvação.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Uma breve leitura do Brasil


Eduardo Tavares Mendes

As amplas manifestações populares que tiveram início em junho de 2013 transmitiram à nação uma mensagem contundente sobre a insatisfação do cidadão brasileiro com a incapacidade ou a inércia das autoridades constituídas frente às graves questões que o País enfrenta.

Os nossos problemas se esparramam por quase todos os setores da vida social. Embora a carga tributária (soma de todos os tributos pagos pela população economicamente ativa) seja uma das maiores do mundo, o índice de retorno à sociedade em termos de bem-estar é decepcionante, ficando abaixo de países reconhecidamente menos desenvolvidos, como Uruguai e Argentina.

A segurança pública constitui um dilema para o qual não conseguimos ainda vislumbrar uma luz no fim do túnel. As drogas ilícitas avançam numa espiral avassaladora, sem controle, ceifando vidas e destruindo famílias, causando problemas de ordem política, social e de saúde pública. A criminalidade ligada às drogas ilícitas mata 80 de cada grupo de 120 pessoas assassinadas no Brasil,  crimes decorrentes de disputas territoriais e de acertos de contas entre os traficantes, sem falar nos  latrocínios praticados por usuários com a finalidade de obter dinheiro para a aquisição de drogas.

Aqui se consome quase todo tipo de entorpecentes, o que não deixa de chamar a atenção pelo simples fato de que o Brasil não produz cocaína, por exemplo, da qual se extrai também uma praga chamada crak: a cocaína entra no território nacional através da fronteira com o Peru, a Colômbia, a Bolívia e o Paraguai. Essa constatação, bastante óbvia, revela a vulnerabilidade que temos nessa área, a reclamar maior investimento do governo federal no policiamento e monitoramento das fronteiras. Não digo que essa medida resolverá o problema, que guarda em si um alto grau de complexidade, mas certamente irá diminuir bastante a oferta no mercado nacional de drogas, com a consequente redução da criminalidade a ele associada.       

Educação e saúde... Bem, sabemos todos que a fragilidade do País nesses dois itens vem de muito tempo, e tem maior impacto sobre a população de baixa renda. Pessoas deixam de ser atendidas nos hospitais e postos de saúde por falta de médicos, de material cirúrgico, de medicamentos e outros insumos; pessoas morrem por falta de atendimento ou devido à precariedade do atendimento. Segundo a Organização Mundial da Saúde, OMS, o Brasil gastou  8,7% do orçamento federal em saúde no ano de 2012; nesse mesmo ano, o Chile destinou 15,1%, e a Argentina, 20,4% para o mesmo setor. Os números explicam o cenário de aparente caos da saúde no País, muito embora tenhamos, no papel, um sistema público de saúde gratuito e universal – o Sistema Único de Saúde, SUS.

Na educação a situação tem melhorado com o Fundeb, um fundo de desenvolvimento criado pela Emenda Constitucional nº 53/2006 com recursos oriundos dos impostos e transferências do governo federal aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios, somados a verbas federais complementares, que correspondem hoje a 10% da contribuição total de estados e municípios. Todos esses recursos são aplicados exclusivamente na educação básica. Conquanto eu entenda que, neste particular, estamos trilhando o caminho certo, por outro lado penso que a aplicação desses recursos pode ser otimizada com a implantação da jornada integral para os alunos do ensino fundamental (de 6 a 14 anos), aos quais seriam oferecidas refeições gratuitas, atendimento médico e odontológico, esporte e lazer, durante 10 horas diárias, de segunda a sexta-feira, como estava previsto no projeto pedagógico dos Centros Integrados de Educação Pública, Cieps, concebido pelo eminente educador Darcy Ribeiro, e que funcionou no estado do Rio de Janeiro durante o governo de Leonel Brizola.  

O ensino em tempo integral, uma obsessão minha desde que ingressei no Ministério Público, é o melhor caminho para o Poder Público promover a cidadania de nossas crianças e adolescentes, afastando-os das armadilhas de um mundo cada vez mais desafiador, pois “são demais os perigos desta vida”. Vejo nele também um instrumento no combate às drogas, à violência e à desigualdade social.

Não posso deixar de lembrar o mal terrível que a corrupção causa ao nosso povo, à juventude, principalmente. São bilhões de reais que escapam das obras e serviços públicos, tomando o rumo imoral do patrimônio de maus brasileiros. Esse odioso fenômeno acaba por minar a confiança das pessoas comuns em seus representantes e nos servidores públicos, criando uma sensação de desalento que afeta as nossas perspectivas de futuro. Pela dimensão do problema, e em razão da própria natureza humana, não me parece exequível erradicar completamente esse mal, essa patologia político-social que ameaça erodir o ânimo dos homens de bem neste País; mas é possível, sim, pela vigilância constante da cidadania e pela atuação firme do Ministério Público e do Poder Judiciário, impondo condenações exemplares aos maus gestores e maus políticos, reduzi-lo à sua mínima expressão, de modo a preservar em cada um de nós a esperança de dias melhores. 


Na condição de pré-candidato nas próximas eleições, meu nome é novo no tabuleiro político. Um deputado federal daqui de Alagoas declarou: “Eduardo Tavares não é do nosso 'meio', não fala a nossa linguagem”. Ele está coberto de razão. Fiquei com a impressão de que ele me outorgou um “Atestado de Idoneidade”, pelo que eu quero lhe agradecer o reconhecimento. Sou um nome novo, repito; mas minha coragem de enfrentar desafios não começou hoje e nem vai esmorecer após as eleições. “Até aqui me ajudou o Senhor”. Sigo, para a frente e para o alto, esperando dividir com o povo o resultado desta luta, que implica sacrifícios, ousadia e doação.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Grata surpresa



                                                            Grata surpresa

      Participei, nos dias 13 e 14 do corrente mês, da XXXVIII Reunião do Conselho de Segurança Pública do Nordeste - Consene, órgão criado pela resolução intergovernamental nº 4, publicada no Diário Oficial da União nº 182 de 1996, tendo como membros todos os secretários de segurança pública e de defesa social,  os comandantes das polícias militares e dos corpos de bombeiros, os delegados  e diretores-gerais das polícias civis, e,também, os superintendentes e diretores das polícias federal e rodoviária federal de todo Nordeste.
        A reunião ordinária que ocorre a cada dois meses, desta feita se deu em Aracaju, Sergipe, com a presença de todos os integrantes. Ocorreu, no dia seguinte, a reunião do Consesp. Presentes, também, O Ministro José Eduardo Cardoso, da Justiça, a Secretária Regina Miki, da Secretaria Nacional de Segurança Pública, além do Governador do Estado de Sergipe, Jackson Barreto.
        O Consene é um dos órgãos de maior prestígio na área da segurança pública e tem a missão, dentre outras, de traçar políticas uniformes de segurança para a região, definir estratégias e medidas que possam resultar  na melhor atuação  dos órgãos de segurança e defesa social.
        Comigo estiveram o comandante da nossa briosa Polícia Militar, Cel. Marcus Aurélio Pinheiro, o comandante do Corpo de Bombeiros Militar, Cel. Gláucio Alcântara, o representante da Delegacia-Geral de polícia, Delegado Flávio Saraiva, além dos superintendentes da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal.
        Tive a surpreendente e grata satisfação de, na ocasião, ser eleito, por aclamação, presidente do mencionado Conselho, apesar de estar a menos de um mês à frente da Seds/AL. A posse foi automática e já passei a dirigir os trabalhos do referido encontro de imediato. Foi eleito vice-presidente o colega secretario de segurança de Sergipe João Eloi. Escolhi, como Secretária Executiva, a Coordenadora do núcleo de políticas para o enfrentamento ao tráfico de pessoas, de Pernambuco, Jeane Pinheiro.
        Procurarei, nessa nova missão, fortalecer o intercambio entre os estados, de modo que possamos, juntos, combater com mais eficiência e eficácia a grande crise de violência que assola o Nordeste e, particularmente Alagoas. Com homens estimulados, entusiasmados, com tecnologia e inteligência e com vontade política, sem duvida venceremos.



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Rio de Lágrimas ( Parte IV) Descendo o rio

Rio de Lágrimas

Parte IV

Descendo o rio.


O portal da entrada de Traipu. (Foto: Claudemir Mota)


Igreja de Nossa Senhora do Ó, em Traipu/AL. (Foto: Claudemir Mota)


Monumento a Nossa Senhora do Ó, na Rua da Rocheira, em Traipu/AL.

        Finalmente, chegou o dia 27 de dezembro de 2013, data fixada para a expedição dos amantes do Velho Chico cumprir a segunda etapa da extasiante aventura, agora rumo à foz. Saímos de Maceió na véspera: eu, o Coronel Marcus Pinheiro e o Sargento Alex, ambos da polícia militar de Alagoas; o Claudemir Mota, fotógrafo; e o José Luiz, piloto e cuidador da “Catita do Rancho”, a valente lanchinha de 24 pés que, na viagem anterior, nos levou até Canindé do São Francisco e nos trouxe de volta.
       Como da outra vez, chegamos ao nosso sítio denominado de “Rancho São Francisco” no começo da noite. Já nos aguardavam os nossos colaboradores de terra, o Eraldo, a Mazé e a Flavinha. Como sempre, a Mazé havia preparado uma suculenta refeição e, ao longo da noite, cuidamos dos últimos preparativos para a viagem.

Café da manhã no Rancho São Francisco. (Foto: Claudemir Mota)


      Lavamos a lancha e a abastecemos de todos os mantimentos necessários. Traçamos a rota. Quinze dias antes, havíamos consertado a hélice do motor Mércury, de 200 cavalos, danificada na viagem anterior após chocar-se com uma pedra submersa e, junto com ela, levamos uma outra, nova, de reserva.


Equipe preparada para ir ao Porto. (Foto: Claudemir Mota)

O Pavão queria ir junto. (Foto: Claudemir Mota).



abastecendo a lancha . (Foto: Claudemir Mota)

Descendo a rampa. (Foto: Claudemir Mota)

     Dormimos e, pela manha, após o dejejum, rebocamos a embarcação ao posto e a abastecemos de combustível e água. Na beira do rio, reintegrou-se à equipe o José Rodrigues, o Rodrigo, que, desta vez, levou sua janga com motor Yamaha de 40 cavalos para nos dar apoio. Enquanto isso, o Claudemir fotografava a Matriz de Nossa Senhora do Ó e o monumento, totalmente reformado, localizado na Rocheira, ostentando a imagem restaurada da Virgem Maria. Exatamente às 09 horas daquela manha ensolarada, todos a bordo, saímos com destino à desembocadura do rio. Combinamos fazer uma única parada em alguma ilha, para o almoço, e em Penedo, à noite, onde deveríamos acampar.

Começamos a descer o rio. (Foto: Claudemir Mota)

     Passamos pela fazenda Sacão, depois pela fazenda Marcação, hoje um assentamento rural no município de Traipu. Avistamos os povoados Oiti e Tijuco no lado sergipano; do outro lado, na margem alagoana, lá estava o povoado de Lagoa Funda; em seguida, vimos o povoado sergipano de Escurial, já visitado na primeira parte da aventura. Ainda em Traipu, ao passarmos pelo distrito de Bom Jardim, orlado por um denso cortejo de mangueiras das mais variadas espécies, vimos, ao longe, a jusante, uma ilha com grande extensão de praia de areias douradas, nas imediações do município de São Brás, em Alagoas. Ali ancoramos as embarcações, montamos uma barraca, fizemos fogo, assamos carne e almoçamos. A essa altura o relógio já marcava 13 horas.

Almoço na Praia de Areias douradas. (Foto: Claudemir Mota)

     Navegamos até aquele ponto em velocidade moderada, por conta dos bancos de areia. Eram muitos. Tínhamos que andar em zigue-zague. O Claudemir fotografava tudo: as fazendas, as igrejas, as pastagens, os povoados, as garças que embelezavam o leito do rio com seus voos sincronizados. A água do rio cada vez mais azul e, como previsto, as margens, ainda verdes em razão de chuvas esparsas de verão, se achavam ornamentadas pelo amarelo, pelo branco e pelo vermelho das flores das caatingas, dos ipês e dos mandacarus: um espetáculo da natureza. Tomamos banho, preparamos as embarcações e, por volta das 15 horas, zarpamos rio abaixo. O trecho seguinte, com mais volume d'água, nos proporcionou uma navegação mais rápida.
A vegetação marginal ainda verde. (Foto: Claudemir Mota)

Flores da região ribeirinha. (Foto: Claudemir Mota)
Romã: fruto comum na região. (Foto: Claudemir Mota)

Vegetação típica das margens. (Foto: Claudemir Mota)



Craibera. (Foto: Claudemir Mota)

Mandacaru e palma comuns no sertão nordestino. (Foto: Claudemir Mota)

     Da ilha em que estávamos até Propriá, em Sergipe, passando por Porto Real do Colégio, em Alagoas, gastamos quarenta minutos, navegando no limite da velocidade de cruzeiro, ou seja, 30 milhas náuticas, ou nós. A lancha planava de maneira que parecia voar na flor da água. Viagem rápida, segura e econômica, porque o motor se esforça menos, já que o atrito do casco da embarcação na água é mínimo. Logo avistamos o morro do Gaia, em São Brás, local onde é feita a captação da água que abastece a cidade de Arapiraca, a segunda mais importante de Alagoas. Aportar em São Brás é difícil, em virtude do assoreamento. Já Porto Real do Colégio apresenta uma estrutura portuária bem melhor. Escrevemos sobre essas cidades na primeira parte deste trabalho. Em Colégio, chama a atenção a imagem de Bom Jesus dos Navegantes, fixada em uma saliência rochosa na margem do rio.

Morro do Gaia, onde é captada a água para Arapiraca, em Alagoas (Foto: Claudemir Mota)
O voo da garça. (Foto: Claudemir Mota)

Ainda o morro do Gaia, em São Brás. (Foto: Claudemir Mota)


Do lado direito, a cidade de Propriá. Belo lugar, desenvolvido e marcado pela existência de casarões antigos e pelo lindo templo católico, em estilo gótico. Na verdade, Propriá já foi a segunda cidade mais rica de Sergipe, sede do comércio regional, mas a decadência do Velho Chico, aliada a administrações municipais desastrosas, transformaram-na na 22ª economia do Estado. Propriá ficou conhecida também através da canção de Luiz Gonzaga que diz:

“Tudo que eu tinha deixei lá não trouxe não
deixei o meu roçado plantadinho de feijão
deixei a minha mãe com meu pai e meus irmãos
e com a Rosinha eu deixei meu coração
Por isso eu vou voltar pra lá
não posso mais ficar
Rosinha ficou lá em Propriá

Aiai, uiui, eu tenho que voltar
Aiai, uiui, a minha vida tá todinha em Propriá”

Ponte que liga Porto Real do Colégio, em Alagoas à Propriá, em Sergipe. (Foto: Claudemir Mota)
Casarões do início do Século passado, em Propriá/SE. (Foto: Claudemir Mota)
Embarcação típica da região. (Foto: Claudemir Mota)

        Interessante é que eu tinha uma tia chamada Rosinha, que morava em Propriá. Naquela época, eu pensava que a música do Gonzaga, que tocava constantemente no rádio, falava justamente dela. Coisas de criança.

        O relógio marcava 16 horas. A janga do Rodrigo vinha sendo conduzida pelo José Luiz. Do rio, limitamo-nos a fotografar a cidade, pois pactuamos visitar algumas delas na ida e outras no retorno. Seguimos viagem. Passamos pela ponte que liga Porto Real do Colégio a Propriá, bela obra da engenharia. Navegamos sob o vão principal, onde a correnteza era muito forte. Aceleramos a valente “Catita”, pois queríamos chegar em Penedo, a Capital do baixo São Francisco, antes do anoitecer.
Igreja Matriz de Propriá, em Sergipe. (Foto: Claudemir Mota)

      Tivemos que nos deslocar de Sergipe para a margem alagoana, devido à existência de extensos bancos de areia no lado sergipano. O rio, desse ponto em diante, apresenta uma beleza bastante variada, seja em razão da alternância entre morros e baixios nas margens, seja em razão da diversidade de biomas, começando a prevalecer a mata atlântica. Há muitas fazendas e povoados nas duas margens. Passamos a desenvolver novamente uma velocidade de 30 milhas, pois o trecho permitia. Começava a anoitecer. O José Luiz, que vinha logo atrás, sumiu. Surgiu um dilema: aguardaríamos o José Luiz e seguiríamos com as duas embarcações no escuro até Penedo, ou aproveitaríamos, ainda, a claridade do entardecer e rumaríamos até Penedo para aguardar o velho piloto extraviado, confiando em sua experiência de velejador do mar e do rio? Achamos que a segunda opção era mais inteligente, pois ancoraríamos a “Catita” com segurança e tomaríamos as providências caso a embarcação de apoio demorasse muito. Assim fizemos.


José Luiz ficou pra trás e sumiu. (Foto: Claudemir Mota)

       A região de Penedo é cheia de ilhas. Navegando entre uma e outra, chegamos em Penedo no início noite. O movimento de balças e outras embarcações era grande. Um pouco antes do porto das balças, defronte à Igreja Nossa Senhora das Correntes, avistamos um pequeno espaço entre uma pedra e o casco do navio Comendador Peixoto, abandonado naquele local na década de 70 do século passado, tendo posteriormente afundado. Como adquirimos grande experiência em atracar em todos os tipos de portos, com píer ou sem píer, em terrenos de areia e até com pedra, não tivemos nenhuma dificuldade de ancorar a lancha. A operação foi realizada com grande habilidade.



Navegação noturna belíssima, nas proximidades de Penedo/AL. (Foto: Claudemir Mota)



Aportando em Penedo pela noite. (Foto: Claudemir Mota)


Ancorando no porto de Penedo/AL. (Foto: Claudemir Mota)



Catedral Nossa Senhora do Rosário, em Penedo. (Foto: Claudemir Mota)

Interior da Catedral Nossa Senhora do Rosário. (Foto: Claudemir Mota)


     O relógio marcava 19 horas. Desembarcamos, e nada de o José Luiz aparecer. Tentamos comunicação via celular, mas verificamos que o seu telefone ficou a bordo da “Catita”. Deixamos o Alex tomando conta da lancha e fomos até à praça da prefeitura. Ligamos para um amigo navegador, o Mario Jorge, para pedir auxílio na busca pelo José Luiz. Nesse instante, o Alex nos ligou e disse que o José Luiz havia chegado no porto sem nenhum problema. Foi um alívio para todos. O Coronel Pinheiro, que é de Penedo, nos levou, então, a um maravilhoso restaurante, o Maurício de Nassau, situado entre a prefeitura e a catedral de Nossa Senhora do Rosário, um dos sítios mais encantadores da cidade. Reunida a equipe, pudemos degustar uma boa peixada com camarão e a especialidade da casa: jacaré. O restaurante é um verdadeiro museu sobre o São Francisco, com fotos antigas e objetos regionais.

Prefeitura Municipal ao fundo. (Foto: Claudemir Mota)



Restaurante Maurício de Nassau, em Penedo/AL. (Foto: Claudemir Mota)


Entrada do Restaurante Maurício de Nassau, em Penedo. (Foto: Claudemir Mota).
Aguardando o jantar ao lado do amigo Mário Jorge. (Foto: Claudemir Mota)


      Antes do jantar, chegou o Mário Jorge Athayde, de quem nos tornamos amigos em razão de dois pontos comuns: o fato de apreciarmos tanto o mar quanto o rio. O Mário é um velho lobo do mar, nascido em Penedo, tendo morado um bom tempo em Recife. Construtor, foi secretário de obras de Penedo e hoje montou uma escola de vela. É proprietário de várias embarcações, dentre elas o catamarã Taroa, de 27 pés, com o qual navegou até a Ilha de Fernando de Noronha para participar da Regata Recife – Fernando de Noronha (Refeno), em 2010. O nome do veleiro do Mário é “Seu Dadá”, uma homenagem ao seu saudoso pai, um nome muito conceituado em toda região. O Mário nos deu, naquela noite, grandes lições de navegação e valiosos detalhes sobre o São Francisco.

A Janga do Rodrigo conduzida pelo José Luiz afundando. (Foto: Claudemir Mota)

     Quando, por volta das 23 horas, chegamos ao porto, surgiu um imprevisto! A janga do Rodrigo, uma Fibramar de 17 pés, estava literalmente afundando. Grande preocupação tomou conta de todos. Pensamos, a princípio, que teria ocorrido alguma avaria no casco. A essa altura, o motor já estava submerso. A presença do experiente Mário Jorge foi fundamental para a solução do aparentemente grande problema que estávamos a enfrentar. Juntamos 10 pessoas e, com a ajuda da camioneta Ranger do Mário, conseguimos arrastar a janga pra fora da margem até uma saliência arenosa. A embarcação ficou em declive, como se fosse uma gangorra, e, retirados os bujões, toda água vazou, o que nos custou quase uma hora. Com o casco seco, foi mais fácil colocá-la novamente na água e rebocá-la em uma carreta do grande amigo Mário Jorge. 

Acampando em uma ilha defronte a Penedo. (Foto: Claudemir Mota).

        Deixamos a embarcação recém-naufragada no posto de combustível localizado à beira rio e, por volta da meia noite, sob a orientação do Mário, subimos todos a bordo da “Catita” e, vagarosamente, lançamo-nos ao rio à procura de um lugar seguro para montar acampamento. Navegamos na escuridão profunda. Circulamos uma ilha extensa e, depois de meia hora, finalmente encontramos uma praia adequada. Ligamos o gerador, armamos duas barracas, fizemos fogo e, por volta de uma hora da madrugada, estávamos tomando café sob um céu caprichosamente estrelado. O Claudemir, nosso fotógrafo, também conhecido por “Batoré”, um poço até aqui de medo, ficava vigilante, atento a todo e qualquer ruído que pudesse ser percebido no entorno do acampamento, como se estivesse prenunciando o ataque irresistível de algum predador ou a inoportuna chegada de algum visitante inesperado.

         Por volta das 07 horas, depois de tomarmos café e desmontarmos o acampamento, embarcamos e seguimos novamente para o continente, a fim de resolver o problema da janga. Pelo dia, percebemos como o rio estava assoreado e ficamos a nos perguntar: como havíamos navegado naquela localidade pela noite, sem encalhar em um banco de areia sequer?

         Aportamos em Penedo, em um trecho apinhado de pequenas embarcações. Ancoramos entre uma e outra e encontramos novamente o Mário, que providenciou mecânico para verificar o motor do barco que havia ficado temporariamente sob as águas. Enquanto o Mário, junto com o Rodrigo, tomavam essas providências, saímos a passear pela cidade e tiramos fotos de pontos turísticos importantes, como a igreja de São Gonçalo Garcia, o mercado público e outros.
Igreja São Gonçalo Garcia em dia movimentado.  (Foto: Claudemir Mota)


Casarões centenários de Penedo/AL. (Foto: Claudemir Mota)


Centro comercial de Penedo, vendo-se ao fundo o Hotel São Francisco. (Foto: Claudemir Mota)


          Ao retornarmos ao porto, o Mário já nos informou que o motor estava em perfeita condição, e que a lancha só submergiu porque entrou água pela tubulação da instalação elétrica. A explicação foi simples: ao chegar em Penedo, o rio estava com o nível baixo, em razão da influência da maré. Como a janga ficou em declive por causa do sulco natural da margem, com a proa em cima da areia, quando o rio começou a encher, o movimento das águas foi, pouco a pouco, invadindo a embarcação, que começou a afundar. Mais uma lição do mestre Mario Jorge Athayde: “Deixe a embarcação sempre dentro d´água”.

       Agradecemos ao Mário e embarcamos todos. Agora o Rodrigo e o Alex iam na janga, e nós outros, na “Catita”. Os ânimos eram outros. A animação tomava conta de todos. A ideia de chegar à foz nos empolgava. Rumamos em direção ao porto de Neópolis, em Sergipe, seguindo a rudimentar sinalização de navegação: pedaços de madeira fincados no leito quase seco do rio com um pedaço de tecido amarrado em sua extremidade, informando basicamente qual era o trecho navegável. Seguindo a montante, fomos à cidade de Santana do São Francisco, antiga Carrapicho, município recém-criado e que tem se notabilizado pela arte em cerâmica e barro. Visitamos inúmeras oficinas de artesanato. Chamaram-nos a atenção as estátuas em tamanho natural de santos e de personalidades políticas do País. Animais como vacas, porcos, aves, peixes, além de igrejas, índios, baianas e outras figuras interessantes formam o elenco criativo do que se produz em Santana do São Francisco e se encontra em todo o Brasil, mostrando a arte do baixo São Francisco. Fizemos compras, visitamos a aconchegante cidade e nos dirigimos à margem do rio, para embarcar rumo à cidade de Piaçabuçu.

Esculturas em barro. (Foto: Claudemir Mota)

 Irmã Dulce, esculpida por Capilé (Foto: Claudemir Mota)




Arte em barro de Santana do São Francisco. (Foto: Claudemir Mota)


       Eram 11 horas do dia 28 de dezembro de 2013. Que paisagem deslumbrante! Baixios enormes, ilhas extensas, vegetação diversificada. O trecho permitia que navegássemos em velocidade mais rápida. Passamos por inúmeros povoados existentes nas duas margens, embora navegássemos mais pela margem alagoana. A partir do povoado de Penedinho, já no município de Piaçabuçu, encontramos inúmeras chácaras de luxo, com iates e todo tipo de embarcação atracadas em píeres particulares. À medida que nos aproximávamos de Piaçabuçu, percebíamos que o leito do rio se encontrava cheio das embarcações: escunas, lanchas, veleiros, canoas de pescaria, embarcações marítimas etc. Parecia que estávamos em outro país.

Barcos em Piaçabuçu/AL. (Foto: Claudemir Mota)


Veleiro"Seu Dadá". (Foto: Claudemir Mota)



Embarcações típicas da região. (Foto: Claudemir Mota)
Porto de Piaçabuçu. (Foto: Claudemir Mota)
A pesca na região de Piaçabuçu é intensa, em razão da proximidade com o mar. (Foto: Claudemir Mota)


São muitos as mansões  à beira-rio com seus piers, na região de Piaçabuçu/AL. (Foto: Claudemir Mota)


Ancorando em Piaçabuçu. (Foto: Claudemir Mota)


Providenciando o combustível. (Foto: Claudemir Mota)



Coreto de Piaçabuçu. (Foto: Claudemir Mota)


Uma das casas mais antigas de Piaçabuçu. (Foto:Claudemir Mota)


Praça central de Piaçabuçu, vendo-se, ao fundo, a Matriz de Nossa Senhora Mãe dos Homens. (Foto: Claudemir Mota).




Pescando com a tarafa. (Foto: Claudemir Mota)




       Chegamos em Piaçabuçu, a última cidade alagoana do baixo São Francisco. Procuramos um lugar para atracar as embarcações. O porto estava muito movimentado. Avistamos uma espécie de beco onde o rio avançava. Tivemos a ideia de ancorar os barcos ali. Foi perfeito. Algumas embarcações pequenas se achavam na localidade. Ficamos eu e o Claudemir a bordo da “Catita”, e os demais companheiros foram providenciar combustível para as duas embarcações, em uma moto guarnecida por uma carreta. Duas viagens foram suficientes para o abastecimento. O Rodrigo aproveitou e comprou “quentinhas” com arroz, carne, frango e linguiça, furando o pacto de que deveríamos preparar a nossa própria refeição nas ilhas. Mas a verdade é que, com a fome que estávamos, aquela tinha sido a melhor ideia do dia.

Os barcos retornando da foz com turistas a bordo. (Foto: Claudemir Mota)

     Seguimos navegando e logo adiante encontramos uma praia na margem alagoana, perfeita para almoçarmos. Almoçamos a bordo. A distância de Piaçabuçu à foz é de 14 quilômetros, e o relógio marcava 15 horas e 30 minutos. Em velocidade de 20 nós, deveríamos fazer o percurso em, no máximo, quarenta minutos, o que de fato aconteceu. Era intenso o movimento de embarcações vindas da foz com turistas de Alagoas e de outras partes do Brasil. Catamarãs e lanchas repletos de passageiros. Passamos por 25 ou 30 deles. Os turistas nos acenavam, embalados pelo som de canções bem animadas. Interessante é que, tão logo saímos de Piaçabuçu, já avistamos as dunas da foz, que parecia mais próxima. Pouco depois das 16 horas, chegamos à foz do rio São Francisco, uma das paisagens mais belas que já vimos. As praias estavam cheias e embarcações. Encostamos na areia, tomamos banho, conversamos com alguns turistas. O Cel. Pinheiro encontrou conhecidos. Do outro lado do grande lago formado pelo encontro do mar com o rio, avistamos o famoso farol de aço na praia de Cabeço, no lado sergipano. Uma bela visão! Navegamos cerca de dois quilômetros em direção ao farol, em águas profundas. A medida em que nos aproximávamos do farol, percebíamos a grandeza e a beleza daquele monumento imperial, já inclinado pela força do tempo e das águas, apesar de firme no chão, ainda. Ancoramos as embarcações próximo ao farol, mas fomos informados pelos nativos de que ali era quase mar aberto, e que ventava muito pela noite, além da forte correnteza ocasionada pela maré. 

Farol do tempo do Império, no povoado de Cabeço, em Sergipe. (Foto: Claudemir Mota)

Farol visto do mar. (Foto: Claudemir Mota)




Entrada do Farol. (Foto: Claudemir Mota)


















Escada em espiral ainda intacta. (Foto: Claudemir Mota)


Escada de acesso a parte superior do Farol 








Farol corroído pelo tempo. (Foto: Claudemir Mota)
                               






Farol visto da praia. (foto: Claudemir Mota).


Pequena península separando o mar, do lago formado pelo Rio São Francisco. (Foto: Claudemir Mota)
Ancorando as embarcações em uma pequena enseada. (Foto: Claudemir Mota)


      Contornamos a praia do farol e entramos em uma espécie de lago, com águas totalmente abrigadas, cujas praias situavam-se rente ao farol. É que o farol fica localizado em uma espécie de península, lugar perfeito para montar acampamento. E lá fomos nós: armar barraca, fazer fogo, ancorar as embarcações, com o máximo cuidado para não sermos tomados de surpresa pela maré alta – mais uma lição do “velho lobo do mar” Mário Jorge Athayde. Aproveitamos para fotografar o farol e a região. Em terra firme, também em Sergipe, extensos coqueirais. O anoitecer foi belíssimo, sobrelevando, na ocasião, a silhueta do velho farol, que parecia tudo observar.

        Ainda no gozo daquele maravilhoso espetáculo, recolhi-me aos meus aposentos na “Catita do Rancho” e, sem nenhum esforço mental, surpreendi-me com o pensamento voltado para a história da índia Irati. Nos próximos dias, postarei relatos do retorno desta magnífica aventura pelas águas sinuosas do rio São Francisco da minha infância, da minha adolescência, da minha vida.